Frank estava ali, no descampado, frente à Desolação. No caminho, seu algoz, a sombra daquilo que um dia fora seu amigo David. Ele vinha em sua direção, espada e escudo em mãos, com olhar desafiador. Frank parou. David continuava vindo, cada vez mais perto. Sua armadura fosca brilhava ao sol daquela manhã.
Frank sacou sua espada, e equipou-se de seu escudo. Não haveria como passar por David sem que houvesse uma luta. Queria evitar isso ao máximo:
-Vamos David, não fique no caminho! Só será pior para nós dois se nós lutarmos aqui na Desolação. Os dragões podem acordar novamente, e então tudo será perdido!
David parou. Por um momento Frank pensou que ele reconsiderara, mas David apenas levantou a mão, retirando seu elmo e deixando-se mostrar seus chifres.
-Sim, agora entendo. Agora entendo o que o levou a trair nossa comissão. Você foi afetado pela febre de dragão. Foi por isso. - constatou Frank, desconsolado - Temo então que não há outra maneira de resolver nossos assuntos pendentes. Teremos que batalhar aqui mesmo, na Desolação. Não importa mais se os dragões acordarem, não é mesmo? Então que assim seja. Vamos lutar.
-Sim, vamos lutar. Eu nunca fui bom em muitas coisas, mas ao menos a febre do dragão, como vocês mortais dizem, me trouxeram boas habilidades com espada. Depois que eu acabar com você, acabarei também com a sua comissão. E então eu saquearei as vilas do sul, estuprarei suas mulheres, farei escravos dos seus soldados e governarei com mãos de ferro. A todos aqueles que quiserem se opor a mim serão degolados, seus membros cortados e espalhados pelos campos e com suas entranhas eu alimentarei os corvos e as aves de rapina.
-É uma pena ver que você cedeu tão cedo à ganância da febre. Talvez você se lembre do homem valoroso que um dia foi, quando lutou ao meu lado nos campos de Galandr, e evitou que essas mesmas mulheres e soldados sofressem pelas mãos dos orcs e trolls.
-Lembro-me. Lembro-me também da estupidez com a qual eu fui emboscado naquela mesma noite. E eu afirmo, que isso não se repetirá. Sinta, Lord Frank, sinta o meu poder. Ele cresce, se multiplica, fica maior a cada dia. Não há quem possa me impedir agora! Eu serei o governador de uma nova ordem, uma nova era. A Era do Caos finalmente chegou, e eu sou seu principal emissário, Lord Frank. Eu, Lord David de Galandr, filho de Jasão de Galandr, neto de Belerofonte de Angklus, serei o novo Rei sobre a Desolação. Todos irão se ajoelhar sobre mim, pedindo, implorando para que eu lhes dê terras para lavrarem e colheitas para trabalharem. Agora, sem mais demoras, vamos ao que nos interessa nesse momento. Vamos, saque sua espada, pois hoje eu farei festa sobre o teu cadáver, Lord Frank de Galandr! Em guarda!
David avançou na direção de Lord Frank, andando. Com seu escudo protegendo o corpo, sua espada vinha, brilhante e letal logo atrás. Quando se puseram à uma distância considerável, ambos deferiram golpes com suas espadas, que soaram um clangor seco, fazendo eco nas montanhas à sua volta. Ambas as espadas se encontraram no ar, e agora os dois lutadores disputavam com força bruta quem dos dois tinha mais vigor físico, suas espadas criando mossas.
David foi o primeiro a livrar-se do bloqueio. Com seu escudo desferiu um golpe na mão direita de Frank, que soltou um urro entre os dentes. Recuperando-se do golpe, girou seu escudo na direção do estômago de David, jogando-o para trás. Seu golpe não fez o efeito inesperado: a armadura de David absorvera todo o golpe. Recuando um pouco, preparou outro golpe, dessa vez uma estocada em direção ao pescoço de David. Com um giro rápido, David bloqueou o golpe com sua espada. Recuperando-se de sua guarda, David fez um movimento circular sobre a cabeça com sua lâmina, e tentou golpear a cabeça de Frank, que rapidamente se esquivou para o lado e tentou uma estocada rápida contra o peito de David, errando por pouco, acertando uma escama de sua armadura.
Ambos voltaram à posição de defesa, escudos postos à frente, suas lâminas preparadas para o primeiro golpe. Ficaram algum tempo se olhando, um tentando prever o movimento do outro.
David foi o primeiro a quebrar sua posição. Usando de sua esperteza, fingiu um golpe na altura do pescoço de Lord Frank, e quando este colocou sua espada na frente para um bloqueio certeiro, David girou na direção contrária, abaixando-se e golpeando na altura dos tornozelos de seu oponente. Lord Frank agiu rapidamente, colocando seu escudo na frente, mas o golpe fora suficientemente forte para derrubar-lhe no chão. Caiu com a barriga para cima, desprotegido pelo golpe anterior. David habilmente golpeou seu oponente caído com seu escudo, lançando a borda inferior contra o pescoço de Lord Frank. Este, num movimento rápido, rolou para o lado duas vezes, escapando primeiro do escudo, e depois de uma ferroada que vinha de cima.
Ao recuperar-se, colocou seu escudo no caminho de outra ferroada que vinha, ligeira, evitando assim que fosse ferido. Ambos voltaram à posição de defesa, escudos protegendo seus corpos. Eles agora começavam a sentir cansaço, mas Lord Frank era o mais afetado por esse cansaço, pois vinha caminhando a noite inteira com sua comissão, parando para descansar raras vezes. Tinha a impressão que sua armadura agora pesava muito mais e machucava seus ombros.
-Ora, vamos, David. Esse é o poder da febre do dragão? Aos meus olhos, suas habilidades mudaram muito pouco. Eu ainda consigo lhe vencer, e prever seus movimentos como antigamente.
David não saiu de sua posição de defesa. Sua expressão continuava sendo a mesma, seus olhos vidrados nos olhos de Lord Frank. O sol os castigava ao meio-dia.
Frank decidiu fazer um movimento arriscado. Levou o escudo consigo e se jogou com toda a força para cima de David, que bloqueou seu peso com o escudo que tinha. Num movimento rápido, David empalou Frank, que também havia lhe cravado a espada. O sangue de ambos molhou o chão árido da Desolação. Frank conseguira acertar David na cintura. Numa ferroada que lhe partiu a armadura, ele enterrou sua espada na entre o cinto e um par de escamas da armadura de David; girou a espada, sentindo a carne de seu oponente ser desfiada. Num movimento brusco, retirou a espada, cortando parte dos músculos da cintura de David.
Num golpe de sorte, David também havia machucado seu oponente de maneira quase mortal. Durante o aparatar de escudos, ele aproveitou a guarda exterior de Lord Frank e enterrou sua espada logo abaixo do braço esquerdo. Num movimento tosco e forte, partiu o ombro esquerdo de Frank, que no mesmo momento empalava David com seu ferrão.
Os dois homens de armadura titubearam, deixando cair seus escudos. Lord Frank foi o mais prejudicado. Sangrava muito e perdera totalmente o movimento do braço esquerdo. David, apoiado em um dos joelhos, olhava o estrago que seu algoz lhe havia feito. Não era nada muito sério, pensava ele, e ainda conseguiria bandir sua espada, embora temesse não poder levantar novamente seu pesado escudo. Levantando-se debilmente, foi na direção de Frank, e retirou sua espada presa nos ombros dele. Dando-lhe um golpe nas pernas, Frank estava novamente caído, dessa vez de joelhos. David voltou à encará-lo. Seu rosto estava pálido e demonstrava sinais de que iria entrar em choque a qualquer momento. David então, proclamou sua vitória.
-Você realmente achou que podia me derrotar, Lord Frank? Não mais. Eu provei hoje a minha superioridade. Você foi vencido, Lord Frank. Vencido. E eu demonstrei minha força, a mesma força que irá governar o novo mundo.
Antes que pudesse terminar seu discurso, Lord Frank lhe encravara a espada em sua perna esquerda, fazendo com que seu sangue fosse espalhado pelo chão. Ainda se segurando em pé, David urrou de dor com os dentes cerrados e agarrou a lâmina da espada de Frank. Num movimento que lhe exigiu força, David enterrou a espada de Lord Frank mais fundo em sua carne, fazendo com que Frank chegasse mais perto dele. David, então, abaixou-se a falar de perto.
-Não hoje, meu caro amigo, não hoje. Hoje a vitória é minha! Toda minha. Seu sangue confirma isso, meu caro amigo.
Tremendo de dor, e pelo frio que agora estava lhe acometendo, Lord Frank virou-se à David:
-Não. A vitória é minha. Eu venci a febre do dragão. Você sucumbiu à ela. Pode ser que você reine com mãos de ferro, e seu reino seja um reino de caos e discórdia; mas hoje, meu amigo e irmão, hoje eu venci as lendas. Eu venci os dragões. Eu irei agora descansar nos Salões de Mármore, junto aos meus antepassados, e comeremos e festejaremos durante toda a eternidade. Quanto à você, eu lhe condeno às Salas de Tormenta e Ódio, para que seu corpo seja atormentado pelas chagas da febre durante toda a eternidade. Morra! Morra com seu ouro e sua prata, com suas prostitutas e seu exército escravo! Eu lhe condeno agora, eu lhe condeno!
Levantando-se, David segurou sua espada. Com a mão esquerda, segurou os cabelos escuros de Lord Frank e puxou sua cabeça para trás. Numa última estocada, tirou a vida de Frank, que morreu ali. E até os dias de hoje aquela região ficou conhecida como Brehan Galandr.
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Notas:
1-a febre do dragão é conhecida por trazer delírios de poder e ganancia à todo aquele que sucumbir a ela. Uma vez ferido por um dragão, a vítima cai em febre ardente durante dois dias. Durante esses dois dias, aquele que for acometido dessa febre ganha um par de chifres de dragão em sua cabeça, simbolizando a maldição. No entanto, em sua essência, esse indivíduo continua sendo um ser humano, embora desenvolva chifres. Poucos indivíduos conseguem resistir à febre.
2-Bre'ehan Galandr signfica Justiça de Galandr
3-Galandr se lê "Galand'or"
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